quinta-feira, 8 de julho de 2010

Laudo das vítimas: sociedade hipócrita

Sempre que passo na frente de uma funerária com gente sendo velada sinto medo. Medo da minha morte e medo da morte de gentes queridas. Fico pensando como será quando chegar a minha vez. A minha vez de velar pessoas próximas e a minha vez de sair desse mundo definitivamente. Assistindo o jornal da Globo ontem, com a mega cobertura do caso do goleiro do Flamengo, senti um certo pânico de estar em casa sozinha com a minha filha e ser agraciada com alguma invasão doméstica e a impossibilidade de defesa. O caso do goleiro não tem nada a ver com assalto, mas antes do jornal passou o filme “Meu nome não é Johnny” que já havia me deixado carregada. O filme também não trata de assalto, mas a situação de carceragem que aparece no filme me lembrou toda essa tragédia que eu to contando e eu acabei indo dormir com medo. Eu não tinha nem nunca tive esse medo de ser surpreendida em casa, mas depois que minha filha nasceu eu passei a tê-lo, pois não há maior desgraça na vida do que a de acontecer algo grave com um filho. Aproveitando o ensejo, é bom reafirmar que vivemos na sociedade do medo. E eu, que não sou de outro planeta, faço parte dessa constituição e desse sentimento que não sai de mim. Não que eu viva morrendo de medo de tudo, mas de vez em quando a TV me pega e me impressiona. São os espetáculos do medo que eles fazem como ninguém, com mega produções editoriais. O caso do goleiro do Flamengo e o filme que falei anteriormente, me fizeram pensar muitas coisas. A primeira é de que o ponto que chega a capacidade humana de realizar ritos tribais primitivos despedaçando a mulher e jogando a carne pro cachorro, enquanto o goleiro demonstrava aparentemente estar apenas preocupado com a sua carreira profissional, me fez pensar a incalculável e imprevisível atividade humana perante a vida. Coisa de outro mundo ou segredos obscuros da parte da mente que a moral que se vive não permite sair pra fora? Porque o cara que atira uma criança indefesa pela janela também botou pra fora uma coisa que não é de ninguém mais além do seu próprio cérebro. Até que ponto vai a capacidade da mente humana, e até que ponto todos nós não somos assim tão normais quanto as normas mandam ser? Algumas pessoas que cometem estes tipos de crimes não demonstram culpa ou arrependimento efetivamente por ter tirado uma vida. Talvez arrependimento de ter arrumado um problema judiciário, apenas, que atrasa sua vida. São uns extraterrestres que cometem isso? Ou são pessoas como eu, como o vizinho, ou como qualquer um de nós que foi consequentemente criado por nós, e que é fruto desta sociedade que se vive, e não da sociedade dos marcianos?
Não consigo falar de flores, se o tratamento humano continua sendo um tratamento de relações pesadas, egoístas e individualistas. Não consigo prestar atenção no arco-íris, se os adultos continuam incentivando seus filhos a serem cruéis desde pequenos. Dentro da sala de aula da pré-escola, até as idades mais avançadas. Não consigo entender uma sociedade e talvez nem à mim mesma, se somos criados a destruir aquilo que não enxergamos como nós mesmos, se somos instigados a detonar o que é diferente, se somos ideologizados a competir e a vencer dos seres da nossa própria espécie.
Não consigo ter raiva da população carcereira, se lá só tem gente que teve negada sua participação no mundo humano. Não entendo que o crime de assassinato na classe média alta e rica, é um crime hediondo, e as mortes diárias de pobres resultado do crime e do tráfico, são mortes menores ou menos importantes. Não entendo que uma vida tem preço, tem valor, tem cor, tem classe, tem tudo isso agregado, e, portanto, não dói tanto quanto ver pessoas que chamam “do bem”, sendo assassinadas. A morte não tem distinção, ou não deveria ter. Mas a vida, infelizmente, tem. O que importa, na hora da morte, é a vida que se tem. Logo, respeitar a vida e criarmos seres de valor ético, é um grande “depende”. Depende de onde veio o defunto. Certa vez em Gravataí, ladrões assaltaram um banco e a polícia daqui conseguiu pegá-los numa perseguição pelas ruas do centro. Acho que um ou dois morreram. Um é certo, morreu na hora. Ficou lá atirado no meio da Anápio Gomes. A população que estava em volta, aplaudiu. Palmas!! Matamos uma pessoa!!! Um a menos pra incomodar. Essa sinuca de bico é complicada. Claro, que naquele momento, se o ladrão pudesse, mataria o policial também. Mas daí a bater palmas por uma morte, seja ela qual for, é um reflexo da podridão das relações humanas e da concepção do que é ou não é vida. O que questiono, é que a sociedade não precisava chegar ao ponto de ter que acontecer uma perseguição policial, em função de assalto, em função de má distribuição de renda, em função de desigualdade social, em função de crueldades que o capitalismo gera, em função de como foi a infância daquele ladrão morto, em função de tudo junto e mais um pouco.
Estava observando a criançada na entrada da escola da minha filha, e percebia diversos movimentos daqueles tocos de gente. É mesmo tão necessário que as crianças sejam instigadas a não gostar disso ou daquilo? É mesmo tão necessário que com o tempo comecem a botar pra fora os preconceitos que escutam dentro de casa? É mesmo tão necessário que escutem tantos preconceitos dentro de casa, na rua, ou em qualquer lugar? Qual a real necessidade de criar temas ou assuntos para que as pessoas se odeiem? O que, de tão grave havia na história do goleiro para que não pudesse dialogar com a mulher assassinada, ao invés de precisar mandar matá-la? O que, de tão grave havia em criar uma filha ao invés de jogá-la pela janela? E os crimes, assaltos e tráfico? Por quê é tão natural saber que alguém morreu assassinado por prestação de contas? Por quê é tão fantástico pegar numa arma e mostrar que é poderoso e pode decidir sobre a vida de outra pessoa? E por quê é necessário que haja tráfico? Por quê falar de drogas é coisa do submundo e não da realidade desse mundo que todos nós vivemos? Por quê vende cachaça no boteco e cocaína na esquina? Quantas vidas mais vamos perder por essa merda de sociedade contraditória que não quer ser assaltada por pequenos traficantes mas também não quer que o tráfico acabe, permitindo que as drogas continuem sendo eternamente proibidas. E a mesma sociedade que não quer drogas legais, também usa essas mesmas drogas mas não quer fazer parte do comércio da coisa. Pra quê essa organização visível que prega de invisível precisa mostrar que é “macho” e continuar empoderando a naturalidade da morte por prestação de contas... e o alto escalão da sociedade empoderando também esse sistema, opondo-se a legalizar as coisas com um discurso falso e hipócrita de que as pessoas iam viver drogadas por aí. Ora, quanta imbecilidade... Cigarro é permitido e eu não fumo porque não gosto. Simples assim. Enquanto discursamos com nossas hipocrisias por aí, setores e mais setores da “distribuição de renda alternativa”, seguem morrendo e matando. Um papelote de cocaína, ou um simples baseado podem estar carregado de sangue na sua origem e trajetória. Por quê a vida das pessoas que trabalham com isso vale menos? A mãe deles chora menos? Se importa menos? E a vida de quem usa e não paga a conta, vale menos também? São pessoas sem família ou sem amigos? O que mais me chateia, é que os donos do mundo que mandam na economia “lícita” mundial, não sofrem destes problemas. Vivem em fortalezas onde ladrão nenhum consegue entrar, tem carros blindados onde bala não pega, andam com seguranças e sistema forte de proteção, enquanto nós, os chinelões da sociedade, continuamos nos matando entre nós, onde uma pessoa que se rala trabalhando pra pagar contas é assaltado por outra pessoa que tem várias bocas pra sustentar, onde nos detonamos entre nós mesmos, tiramos o pouco que temos uns dos outros, enquanto os mega poderosos banqueiros, empresários e o diabo à 4, tem sua concentração de riqueza, suas vidas e casas intactas. Esses sim, só morrem de doença. Ao mesmo tempo, mandam no mundo e na condução ideológica do mundo. Regra número um: “perpetuar suas riquezas... regra número dois, o povo não deve organizar-se, para os manter sempre desordenados em um caos social, regra número três... o que for para lhes tirar poder, deve ser combatido.” Por isso não se legaliza droga, não se faz reforma política, não se ajusta direitos para ricos, só para pobres, por isso não se distribui renda, por isso se instiga o ódio entre os pobres e classe média, para que sigam pensando que essa bosta toda é culpa deles e não dos ricos...
Não consigo falar em flores. E não quero morrer tão cedo. Quero viver, quero que os outros possam viver e que na hora de lutar contra a morte, a luta seja conta a doença, a enfermidade, e não contra os próprios seres humanos.
Uma alternativa, é desligar a TV na hora do jornal. Porque ela é contra a vida. Porque ela faz novelas instigando a naturalização do preconceito, porque ela ganha rios de dinheiro dando holofotes para a mulher esquartejada e faz a gente pensar que pode ser esquartejada a qualquer momento na rua... e assim, faz a gente pensar que se alguém puxar assunto na calçada, merece um soco antes que a gente tome um... faz desconfiarmos uns dos outros, faz parecer que é tão natural que sejamos competitivos, é tão natural que os seres humanos se odeiem ou queiram tirar vantagens nas coisas... e uns serem melhores que os outros, eternamente.
Ontem a minha filha disse exatamente assim, enquanto assistia o filme comigo: “mãe, por quê só tem negros na cadeia?” E agora, será que a sociedade dá conta de responder pra ela????? Enquanto isso a supremacia histórica masculina branca e macha, fica lá no seu reinado absoluto e a gente por aqui por baixo, segue se matando...

1 comentários:

Anônimo,  14 de outubro de 2010 00:36  

A RESPOSTA: eis a saída para as 'não raras'ocasiões em que o mal estar causado com os invencíveis clássicos, que vão desde os mais vulgarizados como, 'lugar de bandido é na cadeia', até os que subestimam qualquer possibilidade de inteligência humana que esteja distante de idéias como, 'tem que criar mais leis nesse país para que crimes não fiquem impunes', que o ditado 'não discuta com um tolo' é o que há para não perder tempo tentando provar o absurdo, é 'cultural'! Enfim, acabo de imprimir o texto para dar de presente aquele que primeiro, no dia de amanhã, expor a sua (in)capacidade intelectual e a sua tolice.

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