domingo, 5 de maio de 2013

A disciplina do desejo

Domingo, solão, dia lindo. Eu acordada desde tão cedo, e já na ativa, já no mate. E por dentro um sentimento incrível de "preciso terminar de corrigir esse monte de coisa duma vez, clausura tem limite!" Por outro lado, um balãozinho dizia: "não sei o que pode haver de masoquismo nisso, mas eu sinceramente adoro esta função de passar tanta clausura pensando aula, corrigindo coisas. Botando elas em dia. Será que isso passa ou é coisa de principiante?"


Enquanto isso, na Sala da Justiça, fui buscar um livro para montar meu "canto da prô da flor amarela", e encontrei um livro de poesias. Putz. Dado momento da vida (já bem tarde), descobri que a atriz que eu pensava ser global e por si só já tacharia de mil coisas, nada mais é do que uma das mais antigas e belas mulheres que ousaram escrever eroticamente, ousaram desafiar o machismo, ousaram usar palavras proibidas, ousaram dizer que mulheres sentem tesão, desejo, loucuras. Descubro que sua inspiração era Manuel Bandeira, Maiakovski, Neruda Drummond, García Lorca. 
A preconceituosa podre, era eu, que não sabia de nada disso. E lê-la, me fez perceber que ela tem sensações muito parecidas com as minhas. Serão sensações de mulheres? Ou será que apenas algumas se identificam? Não sei. Só sei que ela falou por mim pelo menos em boa parte das suas páginas. Desde desejos, até imaginações, amor, paixão, atração, tesão, outras "mundanices" que toda mulher sente e não fala, enfim, muitas coisas misturadas. O livro era de um sebo. Velho. E de repente, o descubro novo para mim.
Ousada, livre, aberta, erótica, inteligente, de uma sensualidade pura e não estereotipada, eis a Bruna no meu Blog com tudo que ela tiver direito.

Tinham tantas que eu queria copiar aqui.

"Caso

Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não

pode ser já por destino 
pelos astros, pelos signos,
por uma marca, uma estrela
talvez já tivesse escrito
na palma da minha mão

talvez não

talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem

ou não."
___________________________________
"A disciplina do desejo

não, não se doma o mar
como não se doma a vida
como não se domam os efeitos
dos raios gama sobre a superfície
acetinada do teu beijo.
Estamos sujeitos às marés
aos ventos, ao tempo, temperaturas
é inútil tentar
a disciplina do desejo.

Tentei domar meu sentimento
a inconstância do meu temperamento
volúvel como são as lágrimas
mas não sou tão vulnerável
às vazantes, desígnios, latitudes
aos ciclos e à força do mistério

tentei domar, disciplinar
não consegui
cedi na primeira noite enluarada
no fundo do quintal, atrás da caixa d´água."

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sábado, 4 de maio de 2013

Eclipse Oculto

Para variar, aprendendo. Altos momentos dialógicos com a minha mãe e a síntese descoberta foi essa. Nada como ter uma mãe que lembra de coisas que viu mil anos atrás. E não esqueceu.

Eclipse Oculto do Caetano Veloso. Me contou que ele escreveu essa música quase como uma "resposta" ao "bum" do "Você não soube me amar" da Blitz. Respondendo que "nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas [...] desperdiçamos os blues do Djavan. [...] não me queixo, eu não soube te amar, mas não deixo de querer conquistar uma coisa qualquer em você... o que será?"

Interessante. "Você não soube me amar" atribui culpa de  fora para dentro. Pelo menos o Caetano admite que "eu não soube te amar... mas não deixo de querer conquistar uma coisa qualquer em você".

Enfim. "Quero que tudo saia como som de Tim Maia, sem grilos de mim, sem desespero, sem tédio, sem fim."


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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sangrando

De chorar. Pegar bem fundo, bem dentro. Com força. Mil metáforas. Que pérola.

"Palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando.
Coração na boca, peito aberto, vou sangrando.
São as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando..."


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Furacão 2000

Esse vídeo é um tapa na cara. É a luta de classes da vida real. É a prova de que endemonizar o funk carioca é, também, um posicionamento ideológico de classe. Furacão 2000 e MC Catra com seu machismo não são a mesma coisa, mas vem da mesma coisa. E não adianta apenas criticar, é preciso debater. Conversar sobre. De onde saiu, por que é assim, por que ficou assim, o que há por trás destas palavras?

Vamos lá! Ao desafio. Dá trabalho.


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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Roda Gigante

EU ANDEI DE RODA GIGANTEEEEEEEEEE!!!!
Com a minha mãe!!!!!!! Que fique registrado isso para minha celebração fúnebre! Andei num equipamento chamado "Evolution". Fiquei de cabeça para baixo... solta num cinto de segurança de metal que não era do meu tamanho! Eu tô magrinha! Quase escorreguei para fora do cinto! Eu escorregava ali e estava na VERTICAL de cabeça para baixo. Hoje meus braços doem. Tamanha força que fiz para não ficar suspensa totalmente preparada para exercer um 9,8 m/s²!!!!!!! Hahahhahaahhahaha eu simplesmente tenho a dizer para Newton que vá tomar no cu!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Foi a metáfora da morte!!!!! Mas eu fui. Venci. Com força, mas venci. Porque rodopiar em todos os sentidos e ainda por cima complemente de cabeça para baixo e segurar com a força do braço, foi um desafio. Puta que pariu! Nada poético. Eu não gritei, nem acredito. Apenas era capaz de expressar palavras de baixo calão que não tenho podido expressar nem no colégio nem na faculdade. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA Na hora de descer do tal "Evolution", a expressão geral das pessoas era: "nunca mais!" Ninguém sorria! ahhahahahahahahhaahahah

Mas o melhor foi tentar poetizar um parque de diversões. Fiquei 50 minutos na fila do Trem Fantasma, esperando que uma caveira saltasse em mim e eu descobrisse que estava no Filme da Amelie Poulain. E? O parque fechou e desligou todas as luzes faltando duas pessoas para a minha vez. Resultado: nada de caveiras, nada de Amelie, nada de me fazer dormir imaginando estar num filme. Fiquei tão frustrada que afoguei minha mágoa comendo um churros.

Minha família riu de mim. Porque viram minha perseverança e insistência na fila absurda do Trem Fantasma.
Trens Fantasmas me lembravam mais que Amelie, me lembravam a infância, a adolescência, já fui em vários, não tinha medo mas gostava do friozinho na barriga que dava porque sabia que alguém ia me dar um susto.

Enfim, fica para a próxima encarnação.

Não ia sair um francês narigudo colecionador de fotos 3X4 vestido de caveira de dentro do Trem e arrebatar meu coração, e preciso me conformar com isso. Ainda bem que acabou tudo quase na minha vez.
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Roda Gigante (Chico Buarque)


Lembra, amor
Do tempo em que existia, amor
O beijo escondido no parque de diversões
E depois,
Brincando de brincar
Nos brinquedos parados
Nós dois.
Me leva ao céu, roda gigante
E o carrossel não pára um instante
Você e eu
Brincamos tanto
É que só o amor não era um faz de conta
Montanha russa emocionante
Túnel do amor apaixonante
Tapete mágico, aviãozinho, trem fantasma
E a noite então
Lembra você, mas qual você
Não lembra não.

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"Os opostos se distraem. Os dispostos se atraem"

Realejo

Será que a sorte virá num realejo?
Trazendo o pão da manhã A faca e o queijo
Ou talvez... um beijo teu
Que me empreste a alegria... que me faça juntar
Todo resto do dia... meu café, meu jantar
Meu mundo inteiro... que é tão fácil de enxergar...
E chegar
Nenhum medo que possa enfrentar
Nem segredo que possa contar
Enquanto é tão cedo
Tão cedo
Enquanto for... um berço meu
Enquanto for... um terço meu
Serás vida... bem-vinda
Serás viva... bem viva
Em mim
Será que a noite vira num vilarejo vejo a ponte que levara o que desejo admiro o que há de lindo e o que há de ser... você
Enquanto for... um berço meu
Enquanto for... um terço meu
Serás vida... bem-vinda
Serás viva... bem viva
Em mim
"Os opostos se distraem Os dispostos se atraem"



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terça-feira, 30 de abril de 2013

Das fortalezas e das fraquezas


Das fortalezas e fraquezas

Há horas sinto vontade de escrever sobre o que me fortalece. Sobre o que me põe a enfraquecer.
Como sempre, tenho vontade de escrever de repente. E na vida, não há notebooks de repente.
Foi na calçada do Parque da Redenção. Foi hoje, 30/04, terça-feira, vi muito daquilo que me mantém e contraditoriamente me detém, contém e retém.

As fraquezas, as fortalezas. A contradição da vida. O movimento.

Vem a fraqueza quando vejo pessoas caminhando desgovernadamente pelas calçadas sem olhar para cima, para o lado, para frente – muitas vezes.
Sinto a fortaleza ao caminhar vagarosamente numa estrada ensolarada, pegar aquele solzinho andando.

Vem a fraqueza quando descubro que um menino que conheço foi parar na FASE.
Sinto a fortaleza quando me dou conta de que meus ouvidos querem saber disso, ouvir o que têm estes meninos a dizer.

Vem a fraqueza quando me dou a quem não quer me receber.
Sinto a fortaleza quando percebo que o mundo é muito maior do que isto.

Vem a fraqueza quando espero para atravessar o sinal e vejo um trabalhador carregando materiais recicláveis em carrinhos carregados com sua própria força física e carros buzinando desesperadamente porque estão atrapalhando o trânsito.

Sinto a fortaleza de quando vejo a organização de determinados setores da sociedade que sequer temos conhecimento. Como o catadores, por exemplo. E que no entanto, tornam-se seres invisíveis, que só podem ser vistos se realmente for para tomarem uma buzinada.

Vem a fraqueza quando o simples ato de atravessar a Avenida Osvaldo Aranha se torna um desafio contra a vida. Ou máquinas de ferro te atropelam, ou pessoas querendo atravessar a rua rapidamente te atropelam também.

Sinto a fortaleza de tentar, pelo menos neste momento, observar tanto a vida que aquele que tem pressa de deixar de viver, siga em frente.

Vem a fraqueza de ver o quanto a rotina do ser humano tem o tornado um ser mal educado, tomado de desconfiança de todos, devastado pelo sentimento de querer dar-se bem a qualquer custo, seja ao custo de pisar em cima dos outros, seja de passar antes na fila, seja de ser ríspido no trânsito porque estás andando mais devagar que o fluxo da morte automotiva, enfim.

Sinto a fortaleza cada vez que repudio o mundo do olho-por-olho, dente-por-dente. Aprendi isso na sétima série. Decorei, é  Lei de Talião. Se um motorista de ônibus mal educado para em cima da faixa de pedestre, a Lei de Talião entra em vigor e o pedestre bate com força, ira, raiva e ódio na lataria do ônibus e xinga o motorista.

Vem a fraqueza de ouvir na sala de aula de minha escola, que os 10.000 protestantes a favor do não-aumento das passagens de ônibus de Porto Alegre eram “terroristas”.

Sinto a fortaleza ao dividir isso com meus queridos e amados irmãos de alma que adotei, que me ajudaram a organizar as ideias para dar a boa resposta sobre isso. Porque eu era, naquela noite, uma terrorista! Molhada da chuva, mal conseguia caminhar de tanta água que caía. Quase fiquei doente, com dor de garganta. E as passagens dos trabalhadores foram garantidas mais baratas por tantos terroristas na rua.

Vem a fraqueza de ouvir um cantor que me lembra alguém.

Sinto a fortaleza quando descubro que tinha “Axé Blond” gravado no meu pendrive, não entendo até hoje porque, e isso me fez esquecer completamente o tal cantor anterior.

Vem a fraqueza de precisar dormir vinte minutos depois que almoço, quando me dou a este luxo de almoçar, e ser criticada porque tirar uma pestana é “vagabundagem” mesmo tendo acordado tri cedo.

Sinto a fortaleza quando realmente consigo tirar esta sesta e azar é do Papa Dom Corleone Pio Francisco de Paula IV.

Vem a fraqueza quando percebo que fome dói. E quem tem fome, não consegue refletir, pensar, raciocinar direito, porque estômago dói. E tem gente com fome ainda. Em Porto Alegre. No Brasil. No mundo.

Sinto a fortaleza quando vejo tanta gente que trabalha na tentativa de transformar tudo isso. Quando escuto relatos de experiências mais variadas. Quando há vontade pública, política e social.

Vem a fraqueza quando um viciado em crack se aproxima e a sociedade me obriga a ter medo dele. Medo do assalto. Medo de ser ingênua.

Sinto a fortaleza quando me dou conta de que não há a menor possibilidade de eu viver angustiada me cuidando para não ser pega, porque a humanidade está adoecida.

Vem uma fraqueza quando me dizem para que eu seja mais “esperta, ligada, desconfiada”. Que deixe de ser espontânea, ingênua. Sinto uma enorme fraqueza quando me forçam a desconfiar ou destituir alguém.

Sinto uma fortaleza sem tamanho quando me convenço que quem é mal intencionado não é responsabilidade minha e não tenho ingerência sobre sua má intenção naquele momento. Se quiser, me mente. Se quiser, me assalta. Se quiser, me trova. Se colar, colou. Se não, não fico buscando alimentar o individualismo extremo. 
Cada um seja o que é se aproxime daquilo que mais lhe pareça. De grupos que se pareçam. Por isso tenho me afastado um pouco do mundo facebookeano.

Vem uma fraqueza quando vejo pessoas que são violentas tanto fisicamente, quanto psicologicamente, compartilhando suas mil opiniões de sabedorias, filosofias, e até religiões que pregam paz, e na vida real não são nada daquilo. Na vida real gritam, xingam, humilham, batem, falam o tempo todo da vida alheia, criticam até o vôo dos pássaros sem nem nunca ter visto um voar.

Sinto uma fortaleza de ter entrado no facebook nas últimas três ou quatro semanas, umas três vezes no máximo. E que fortaleza! Existem limpezas na alma que podem ser com ervas, com religião, com meditações, com diversas formas. Mas uma grande recomendação para quem não aguenta mais um mundo tão injusto e que alimenta uma vasta gama da classe trabalhadora que fica só compartilhando o mal ideológico da humanidade, é realmente entrar menos no facebook. Só desligar a televisão não adianta.

Vem uma fraqueza quando vejo uma pessoa com duas muletas tentando atravessar uma das ruas mais movimentadas de Porto Alegre.
E essa fraqueza toma conta de mim e não encontro uma fortaleza a não ser me dar conta de que os ônibus, os motoqueiros, os carros, andam cada dia mais rápido e cada vez mais pessoas idosas terão menos espaço ainda nessa sociedade que não respeita nem o corpo e nem a sabedoria de quem vive há mais tempo.

Senti uma fortaleza de perceber que era jovem o bastante para viver tanta coisa ainda...

Vem uma fraqueza ao pensar não ser justo um envelhecimento desrespeitoso. Onde construímos isso nessa sociedade “fast-tudo”?


Vem uma fraqueza quando não se pode ser o que se tem vontade, de fazer o bem que lhe bem convier. De ser afetuoso nas situações mais absurdas.

Sinto uma fortaleza quando consigo. Quando uma aluna levanta-se de sua classe, vai até mim e me diz: "professora, eu penso exatamente tudo isso que a 'senhora' falou". O assunto era luta contra o machismo.

Vem uma fraqueza quando vejo muitos de um "prédio azul" estudar e respirar dia e noite a educação mundial e no entanto não perceber o que acontece no muro fora da universidade. Sequer se dão conta do que se passa nos outros espaços, no entorno, na calçada da rua.

Sinto uma fortaleza incomparável quando alguém me vê, e me dá um abraço. Que cala, mas que sente.

Vem uma fraqueza quando a poesia é triste.

Sinto uma fortaleza quando a música é vigorosa.

Vem uma fraqueza quando lembro que pouco andei prestando atenção nas flores nos últimos anos.

Imediatamente sinto uma fortaleza quando olho para minhas florzinhas. Elas sorriem. Acredite.

Vem uma fraqueza quando lembro que contemplei a lua tão poucas vezes em 30 anos.

Sinto uma fortaleza de alimentar-me dela diariamente. Seja da cor e do tamanho que estiver.

Vem uma fraqueza quando as pessoas se medem pela quantidade de penduricalhos caros que compram. Em shoppings, em lojas carérrimas, pagam os mais absurdos preços por algo que talvez sua própria alma não permita que os outros percebam com os próprios olhos.

Senti hoje uma fortaleza, pois ouvi um singelo comentário do florista: “tem pessoas que precisam gastar muito dinheiro para ficarem bonitas. Tem pessoas que são bonitas sem nada disso”. Talvez essas pessoas que precisam relacionar sua autoestima pelo seu nível de consumo, jamais percebam o quanto uma flor é bela. Custa barato. Não vai no pé, não se usa no cabelo, nem na cintura. Apenas se aprecia na alma. E pode brilhar mais que diamante.

E a minha maior fortaleza, é exatamente saber que não estou só com todas as minhas fraquezas. Porque quanto mais pessoas se importam com estas fraquezas, mais se é capaz de praticar a fortaleza coletivamente. 

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